Levantamentos recentes do setor mostram um país que não apenas ouve, mas também assiste e compartilha conteúdo de áudio em ritmo acelerado
O hábito de ouvir podcasts deixou de ser nicho no Brasil e se consolidou como parte da rotina de boa parcela da população conectada à internet. Segundo balanço divulgado pelo Meio & Mensagem com base em dados de Spotify e YouTube, o país é hoje o maior mercado de podcasts em vídeo da América Latina e o segundo maior do mundo, tanto em consumo quanto em produção de conteúdo. O levantamento também aponta um crescimento superior a 10% nas horas de podcast consumidas no Spotify ao longo do último ano.
Esse avanço não se restringe a um gênero específico. De acordo com Camila Justo, responsável pela área de podcasts do Spotify no Brasil, a diversidade temática, que vai de fé e autoajuda a jornalismo e negócios, mostra que o público consome conteúdo de áudio de forma fragmentada, seguindo interesses pessoais em vez de correr atrás de modismos passageiros. O ponto em comum entre os programas de maior sucesso está na construção de comunidades sólidas em torno de conversas que acompanham o dia a dia dos ouvintes, muitas vezes com episódios diários ou semanais que criam presença constante na rotina do público.
A migração para o vídeo muda o jeito de consumir áudio
Um dos fenômenos mais visíveis dessa transformação é a ascensão dos videocasts. Ainda segundo o levantamento, sete dos dez podcasts mais populares do Spotify já contam com versão em vídeo, e a plataforma soma mais de 270 milhões de usuários consumindo esse formato globalmente, sendo que 70% deles assistem com o vídeo em primeiro plano na tela. No Brasil, essa mudança de comportamento também aparece de forma marcante nos números do YouTube, que registra globalmente mais de 1 bilhão de espectadores ativos de conteúdo em áudio e vídeo por mês.
Uma pesquisa da Google em parceria com a Kantar, citada no mesmo balanço, mostra que 83% dos espectadores brasileiros sentem forte conexão com os criadores que acompanham no YouTube, proporção maior do que a registrada em outras plataformas. Lucia Zaragoza, gerente de parcerias para podcasts do YouTube no Brasil, avalia que 2026 marca a explosão das chamadas verticais de nicho, categorias como espiritualidade e bem-estar, jornalismo e política, ou negócios e finanças, que antes dividiam espaço com produções de entretenimento generalista e hoje conquistam audiências próprias e fiéis.
Esse crescimento também aparece refletido em estudos independentes sobre o comportamento do ouvinte brasileiro. Uma pesquisa conduzida pela Acast em parceria com a plataforma Attest, realizada em abril deste ano com 400 participantes e divulgada com exclusividade ao portal Castnews, reforça que o consumo de podcasts no país tem forte componente comunitário. Os dados mostram que o hábito não se limita à escuta individual, já que boa parte do público compartilha trechos de episódios com outras pessoas e se envolve com o programa também por causa da comunidade formada ao seu redor.
Um mercado ainda em transformação
A pesquisa da Acast chega em um momento em que o setor carecia de dados específicos sobre o público brasileiro, uma lacuna reconhecida pela própria diretora-geral internacional da empresa, Megan Davies, responsável por conduzir o estudo após identificar que o país não contava com levantamentos dedicados havia anos. Essa escassez histórica de dados contrasta justamente com o tamanho do mercado nacional, que segue entre os mais engajados do mundo em termos de audiência, ainda que aquém do potencial em termos de investimento publicitário direcionado ao formato.
Esse cenário de transição, marcado pela chegada do vídeo, pela consolidação de nichos temáticos e pelo interesse crescente de anunciantes, indica que o podcast brasileiro está deixando de ser apenas um hábito de escuta individual para se tornar um fenômeno cultural mais amplo, com comunidades organizadas, criadores profissionalizados e cada vez mais espaço dentro da rotina de consumo de mídia do país.



